Fibromialgia e dor neuropática

A fibromialgia e a dor neuropática são condições que apresentam a dor como um principal denominador comum. O conhecimento das particularidades de cada entidade possibilita encontrar semelhanças e diferenças na sua fisiopatologia e possíveis ferramentas terapêuticas para mitigar a dor e a incapacidade associada.

O que é dor neuropática?

A dor neuropática é uma forma de dor crônica particularmente desagradável; isso significa que pode ocorrer durante meses ou anos.
Sua origem decorre de uma alteração da condução dos sinais que os nervos transmitem entre as diferentes partes do corpo e do cérebro. Essa alteração é o resultado de uma lesão em um ou vários nervos do corpo humano. O resultado é o envio de sinais de dor para o cérebro, de forma errática e, ao mesmo tempo, contínua, causando um processo de dor que se perpetua ao longo do tempo (dor crônica).

Existem várias causas e condições que podem afetar os nervos e, portanto, provocar a dor neuropática. Alguns exemplos são:
• Neuralgia do trigêmeo.
• Dor após uma infecção pelo vírus da herpes (neuralgia pós-herpética, vulgarmente conhecida como “cobreiro”).
• Neuropatia diabética.
• Dor do membro fantasma (é a dor que pode aparecer após a amputação de uma extremidade).
• Esclerose múltipla.
• Quimioterapia.
• Infecção pelo vírus da imunodeficiência humana.
• Álcool.
• Câncer.

Embora existam quadros clínicos em que a lesão do sistema nervoso é evidente (assim como na neuropatia diabética), a importância clínica da dor neuropática está na sua consequência e não na própria lesão do nervo: a disfunção da condução nervosa que leva ao aparecimento de sintomas que caracterizam esta doença. Clinicamente, essa condição é expressa por meio do aparecimento da dor na ausência de estímulos desencadeantes, da percepção anormal de dor que aparece após um estímulo que não deveria provocá-la (alodinia) e da sensação de formigamento ou dormência (parestesia). Os pacientes descrevem uma sensação de queimação, choque frio ou choque elétrico associados com a dor. Essas características clínicas da dor coincidentemente também estão presentes em outro quadro clínico cuja prevalência está aumentando, a fibromialgia.

O que é a fibromialgia?

A síndrome de fibromialgia é encontrada entre as condições mais enigmáticas de dor crônica e de maior prevalência. Os pesquisadores e os médicos buscaram sem sucesso uma causa subjacente da dor muscular generalizada inexplicável e da fadiga que caracterizam essa doença. A dor generalizada é percebida em músculos, articulações, ligamentos (bandas resistentes de tecido que unem as extremidades dos ossos) e tendões (aqueles que conectam os músculos aos ossos).
Nas pessoas com fibromialgia, a sensibilidade à dor é encontrada alterada. O estado de dor encontrado não depende do estímulo, o que significa que a sensação dolorosa aparece sem nenhum estímulo que a condicione, embora existam vários fatores emocionais ou físicos que podem exercer um papel na ativação dos sintomas.

Embora a dor seja sentida em músculos e articulações, não há uma lesão visível nesses locais, e os processos inflamatórios que poderiam ser a causa dessa dor estão ausentes. A verdade é que os músculos e estruturas associadas, como os tendões, tornam-se excessivamente irritados por vários estímulos dolorosos. Considera-se que este seja o resultado de uma mudança na percepção da dor, fenômeno que recebe o nome de “sensibilização central da dor”. Na fibromialgia, também é comum a presença de distúrbios do sono e transtornos do humor, como a ansiedade e a depressão, fadiga e dor de cabeça.

Conforme mencionado anteriormente, ao contrário do que acontece com a dor neuropática, nenhuma lesão do sistema nervoso foi demonstrada na origem desta doença. No entanto, algumas pessoas que sofrem de fibromialgia também apresentam uma doença neurológica.
Dor neuropática vs. fibromialgia: diferenças e semelhanças

Apesar das diferenças na origem e na distribuição espacial da dor na dor neuropática e na fibromialgia, há também semelhanças surpreendentes, como, por exemplo, a expressão anormal da percepção da dor. O sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal) codifica a informação recebida desde a periferia, que é originada por diferentes estímulos e é transmitida pelas fibras nervosas.
Na fibromialgia, existiria um estado de “sensibilização central”, que seria responsável pela alteração da codificação da informação; dessa forma, estímulos irrelevantes poderiam ser processados como um sinal doloroso. Em outras palavras, haveria diminuição do limiar de dor e uma percepção alterada de estímulos que não causam dor em condições normais. Observou-se que a sensibilização central é a principal causa de hipersensibilidade à dor após uma lesão.

As pessoas com dor neuropática apresentam frequentemente um aumento anormal da sensibilidade dolorosa provocada pelo calor (hiperalgesia por calor), sendo um resultado da sensibilização periférica das fibras nervosas responsáveis por transmitir a condução de impulsos nervosos (aferentes nociceptivos). O resultado é a manifestação de sensações de prurido (coceira), ardência, dor e dormência que aparece nas áreas afetadas, geralmente nas extremidades. Na fibromialgia, também são frequentes a hipersensibilidade da pele aos estímulos mecânicos ou térmicos e a sensação de prurido ou ardor.

Em geral, embora na fibromialgia não haja lesão estrutural subjacente, nem sinal de inflamação, observa-se uma disfunção aparente na sensibilização do sistema nervoso central e, nesse ponto, haveria uma relação com a dor neuropática, na qual há uma disfunção na condução dos estímulos que codificam a sensação de dor.

Embora a fibromialgia seja atualmente considerada um distúrbio neuropático, a verdade é que, em alguns aspectos – como a origem da expressão clínica –, ambos os distúrbios são semelhantes.

Vivendo com fibromialgia…

Mesmo havendo muitas opções de tratamento, o autocuidado do paciente é vital para melhorar os sintomas e o funcionamento diário das pessoas com fibromialgia. Junto com o tratamento médico, os hábitos de vida saudáveis podem reduzir a dor e a fadiga, aumentar a qualidade do sono e ajudar a pessoa a lidar melhor com a doença. Estes são alguns conselhos de cuidado pessoal para conviver diariamente com a fibromialgia:
• Tirar um tempo para relaxar todos os dias. Praticar exercícios de respiração profunda e meditação ajudarão a reduzir o estresse que pode desencadear os sintomas.
• Estabelecer um padrão de sono regular. Vá dormir e levante-se à mesma hora todos os dias. Dormir o suficiente permite que seu corpo se repare física e mentalmente. Evitar cochilos durante o dia e limitar o consumo de cafeína, que pode perturbar o sono. Se a pessoa com fibromialgia fuma, é recomendável suspender esse hábito, já que a nicotina, sendo um estimulante, pode afetar o bom descanso.
• Realizar atividade física regularmente. Esta é uma parte muito importante do tratamento da fibromialgia. Embora seja difícil no início, o exercício regular frequentemente reduz os sintomas de dor e fadiga. Recomenda-se iniciar uma rotina de curta e baixa intensidade. À medida que os sintomas forem aliviados com tratamentos farmacológicos, aumente as atividades. É aconselhável andar, realizar esportes aeróbicos aquáticos, natação e/ou exercícios de alongamento.

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