Síndrome do intestino irritável

A síndrome do intestino irritável é um transtorno funcional do intestino muito comum na população adulta. Caracteriza-se por sintomas crônicos e, embora não seja associada a implicações graves, costuma alterar significativamente a qualidade de vida de quem dela padece. A dor ou as moléstias abdominais são suas principais manifestações.
Definição e epidemiologia

A síndrome do intestino irritável (SII), também chamada de cólon irritável, é definida como um mal-estar abdominal ou dor associada a uma alteração dos hábitos intestinais durante pelo menos três dias ao mês, no decorrer dos últimos três meses, e em ausência de doença orgânica. É a condição gastrointestinal mais comumente diagnosticada. Afeta homens, mulheres, pacientes jovens e idosos. Entretanto, seu diagnóstico é realizado com mais frequência nos pacientes mais jovens, do sexo feminino.
Essa afecção é um dos motivos mais frequentes de consulta ao gastroenterologista e constitui até 15% das consultas de atenção primária. As taxas de prevalência variam de acordo com as definições utilizadas nos diferentes estudos, estando entre 3% e 32%.

A SII pode sobrepor-se a outras condições, como a doença por refluxo gastroesofágico, a hiper-reatividade brônquica sintomática e também a dispepsia.

A SII é um transtorno recidivante, crônico, com sintomas recorrentes de gravidade variável. Suas complicações estão relacionadas à deterioração na qualidade de vida (absenteísmo no trabalho), custo econômico do tratamento (medicamentos e consultas médicas) e problemas psicológicos que podem aparecer, como a ansiedade e a depressão. É frequente que pessoas com essa condição cheguem a submeter-se a procedimentos desnecessários, e é função do médico evitar que tais complicações apareçam.

O cólon irritável é basicamente uma alteração da motilidade normal do intestino ou da peristalse. Esta última é a contração harmônica e sequencial dos anéis musculares que fazem parte da parede intestinal, e é o que permite o avanço do alimento pelo tubo digestivo. No caso dos pacientes afetados por essa condição, a peristalse encontra-se alterada: aparecem contrações estranhas, antipropulsão e diminuição ou aumento da contractilidade da parede intestinal.

Como a SII se manifesta?

Os sintomas apresentados pelos pacientes afetados dependem essencialmente dessas contrações anômalas; dor abdominal, gases, constipação e diarreia são os sinais mais comuns, e é usual o aparecimento de todos eles em diferentes momentos da vida. Além disso, ainda que em menor medida, podem apresentar-se eructações e mucosidade na matéria fecal.

O curso da doença é variável, com períodos de exacerbação dos sintomas e outros totalmente assintomáticos. O estresse é um importante fator responsável pelo desencadeamento dos sintomas. A vida moderna, repleta de ocupações e preocupações, é uma situação geradora de estresse. Durante o estresse, mecanismos de alerta são colocados em funcionamento; estimula-se o sistema nervoso autônomo, que envia fortes sinais ao intestino e faz com que a motilidade se altere.

Outro fator que influencia na crise da doença é a dieta. Um excesso de calorias e/ou gorduras afeta negativamente esses pacientes, produzindo-se um estímulo da motilidade do tubo digestivo que, como mencionado, é de maior magnitude que a fisiologicamente esperada.

A consulta ao médico e o diagnóstico de SII

Esta é uma doença que costuma ser diagnosticada por exclusão, ou seja, por “descarte” de outras afecções que possam apresentar a mesma sintomatologia. Tanto o clínico geral como o especialista em gastroenterologia estão habituados a receber pacientes com esse tipo de manifestações gastrointestinais, razão pela qual devem estar atentos à necessidade de indicar os exames necessários para descartar outras patologias orgânicas do intestino. Também é correto que, ao se tratar em geral de pacientes jovens, o médico costuma restringir os estudos ao básico e frequentemente inicia um tratamento de teste, aguardando a melhora sintomática.

Um fator importante no momento de expor a situação ao paciente é fazê-lo saber que a síndrome do intestino irritável é uma doença totalmente benigna, que não predispõe ao desenvolvimento de câncer nem a nenhuma outra patologia orgânica grave (embora possa com o tempo gerar divertículos, pequenas herniações da parede intestinal de caráter benigno). Em alguns casos, observou-se que essa doença se desenvolve em pacientes hipocondríacos e/ou cancerofóbicos. Nesses casos, uma interconsulta com um psicoterapeuta pode ser obrigatória.

Como a SII é tratada?

O objetivo do tratamento é avaliar os sintomas e procurar uma melhor qualidade de vida. Isso pode ser particularmente difícil porque os sintomas, com frequência, são recorrentes e resistentes ao tratamento. O estabelecimento de uma boa relação médico-paciente é um componente-chave do tratamento da doença. As interações positivas reduzem o número de visitas de acompanhamento médico. Devido à variabilidade da doença, os tratamentos mais bem-sucedidos serão possivelmente aqueles que envolvam múltiplas estratégias farmacológicas e não farmacológicas.

Entre as opções de terapia não farmacológica estão as medidas dietárias. Em relação a elas, recomenda-se realizar uma cuidadosa avaliação do histórico do paciente para identificar potenciais causas dos sintomas e modificar a dieta para identificar intolerâncias (lactose, frutose e sorbitol); avaliar a ingestão de fibras e recomendar o aumento ou a diminuição destas conforme cada caso. Os alimentos ricos em fibras incluem frutas e vegetais (que contêm fibras solúveis e insolúveis) e os cereais, especialmente o farelo, e contêm fibra insolúvel. O paciente deve manter um registro daqueles alimentos que lhe fazem mal e desencadeiam sintomas, já que estes podem ser realmente variados, e não existe uma regra clara para prever quais deles causarão episódios agudos. Da mesma forma, pode ser necessária, por fim, a ajuda de um nutricionista que organize a alimentação em determinados pacientes com sintomas muito dependentes da dieta.

Tratamento farmacológico

Deve-se ter em mente que, dentre as numerosas formas de apresentação da SII, as mais frequentes são as associadas à diarreia ou à constipação.

A constipação apresenta-se habitualmente com sintomas de inchaço abdominal e dor, acompanhados de sensação de evacuação incompleta e dificuldade de expulsar as fezes. Este sintoma é habitualmente tratado com agentes laxantes.

Os laxantes são usados de maneira frequente na SII associada à constipação quando as medidas sobre a dieta não foram efetivas. Essencialmente, são conhecidos dois tipos de laxantes: os de volume e os emolientes. Os primeiros estão constituídos por derivados de polissacarídeos e celulose não absorvíveis, que se expandem no intestino devido à água, estimulando dessa forma o peristaltismo. Exemplos desse tipo de laxantes são as cascas de Ispaghula (psyllium) e Sterculia. Também dentro dessa variedade estão laxantes sintéticos, como a carboximetilcelulose e a policarbofila.

Entre os agentes emolientes está a lactose, que produz retenção aquosa dentro do intestino, levando ao amolecimento e lubrificação das fezes, permitindo sua mais fácil eliminação. Sua ação começa em 24-48 horas depois de administrada, e entre seus efeitos secundários estão flatulência, câimbras abdominais, diarreia e possivelmente desidratação.

Em todo caso, deve-se evitar o uso crônico dos agentes laxantes devido ao fato de o paciente poder desenvolver dependência.

Quando a SII é acompanhada de diarreia, devem ser usados agentes antidiarreicos a fim de diminuir a frequência e o volume da evacuação intestinal. Esses agentes devem ser administrados antes das refeições e deve-se solicitar ao paciente que evite refeições volumosas, já que, por meio de reflexos, aumenta-se a motilidade do intestino e, com isso, a possibilidade de diarreia.

Muito usados com este fim são os fármacos derivados de opiáceos, que atuam sobre a musculatura gastrointestinal, diminuindo sua mobilidade. Um exemplo desse tipo de drogas é a loperamida, que produz uma desaceleração do trânsito intestinal e uma diminuição da frequência, que melhora notavelmente a consistência das fezes. Porém, em contrapartida, pode apresentar um efeito constipante, causando dor abdominal e câimbras. Além disso, é possível que a droga gere dependência.
Os agentes antiespasmódicos reduzem as contrações excessivas do cólon. Isso é muito útil quando a diarreia e a dor abdominal encontram-se como sintomas predominantes. Os anticolinérgicos inibem a contração do músculo liso intestinal e evitam a dor abdominal associada ao espasmo muscular.

Outros agentes antiespasmódicos, como o pinavério e a trimebutina, também resultaram efetivos no manejo sintomático da SII.

Os antibióticos também podem ser úteis no tratamento da SII ao prevenir o supercrescimento de bactérias intestinais.

Em resumo:

A síndrome do intestino irritável é uma entidade muito frequente na consulta médica e, em especial, na gastroenterológica, na qual metade dos pacientes comparece por essa patologia. Trata-se de indivíduos jovens, estressados, que costumam internalizar seus problemas. Os sintomas são variados, sendo constatadas diarreia, constipação, dor abdominal, distensão, eructações e mucosidade na matéria fecal. Nunca há sangue nas evacuações; se houver, deve-se examinar o paciente exaustivamente em busca de patologia orgânica. Uma vez que o diagnóstico esteja finalizado, deve-se ajustar a dieta e eventualmente medicar o paciente de acordo com o sintoma predominante. Às vezes, é necessário um apoio psicológico.

O paciente afetado por essa doença deve saber que ela é totalmente benigna e que não predispõe ao câncer nem a nenhuma patologia relevante. Também deve ser conscientizado de que é uma doença crônica e que não tem cura, embora a terapêutica costume ser eficaz em médio e longo prazo, mantendo sob controle os sintomas e permitindo ao paciente retomar sua vida normal.

 

 

 
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